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...adaptar.

Ler. Sentir. Cuidar.

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Livro || Londres, Albert: Com os loucos

Desejava ler algum livro mas olhei à minha volta e apercebi-me que nos últimos tempos me tinha rodeado com pilhas de livros técnicos... E não, não eram esses livros que queria ler. Talvez um pouco saturada dessas leituras mais específicas decidi ir atrás de um livro que falasse de outro assunto. 

 

A verdade é que a fuga não foi assim para tão longe. 

 

Lembrei-me que uma grande amiga minha por quem tenho uma especial estima tanto pela sua pessoa como pelo seu intelecto em tempos me tinha sugerido ler "Com os Loucos" de Albert Londres.

 

Iniciei a minha "caça ao livro" que by the way não foi assim tão fácil. Depois de começar a lê-lo depressa percebi a razão pelo qual a minha amiga mo tinha sugerido. 

IMG_0871.jpg

 

Esta história real começa no interesesse do jornalista francês Albert Londres em querer fazer jornalismo de reportagem nos manicómios... 

 

Embora eu não seja louco, pelo menos à vista, quis olhar para a vida dos loucos. E os serviços públicos franceses não ficaram satisfeitos. Disseram-me: «A lei de 38, segredo profissional, o senhor não vai olhar para a vida dos loucos.» Fui ter com ministros, e os ministros não quiseram ajudar-me. Um, no entanto, teve esta ideia: «Alguma coisa farei por si se alguma coisa fizer por mim: submeter à censura os seus artigos.» Pus-me longe dele, e ainda lá ando.
Fui ter como prefeito do Sena. É um homem muito amável: «Graças amim», diz ele, «visitará as cozinhas e a despensa.»
Como receei que também me levasse a ver as telhas da cobertura, fui-me embora.
Voltei-me para os médicos dos asilos.
Fulminaram-me:
— Acha que os nossos doentes são animais exóticos? — diz-me um deles.
Tinha-me tomado por um domador. E para isso ele bastava.
Convenci-me então de que seria mais cómodo apresentar-me como louco do que apresentar-me como jornalista. «Vou à enfermaria especial das prisões da Polícia», digo de mim para mim, «e não tenho dúvidas de que me internam lá!»

 

E lá foi ele. O livro retrata essa "aventura" com um tom irónico e um humor negro que em momento nenhum perde o propósito da investigação.

Ao ler "Com os Loucos" sente-se o pontapear deliberado no sistema que regia aqueles estabelecimentos. O objectivo não era a objectividade polida mas sim a verdade nua e crua de quem vê, de quem sente, de quem vive aquela realidade. 

 

Reza-se para que o livro não acabe mas lê-se num ápice. Numa leitura muito simples apresenta momentos de riso como momentos de perplexidade. 

Fiquei muito fã de Albert Londres não só pelo livro mas pela sua posição epistemológica, pelas lentes com que escolheu olhar para o mundo.

 

Dizia " O nosso trabalho não é o de agradar ou o de prejudicar, é o de colocar a caneta na ferida"